sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

carta três (talvez eu pare de contar)

Carta pra ninguém ou carta pra mim mesma:


"So I looked for your eyes

And the waves looked like they'd pour right out of them
I'll try hard, I'll try always
But it's a waste of time
It's a waste of time if I can't smile easily
Like in the beginning
In the beginning..."


Eu, Isadora, prometo a partir de hoje (28 de fevereiro de 2008), nunca mais me apropriar dos desejos alheios. Isso faz sentido? – afinal, pra quem pergunto se ninguém vai ler, relembrando que essa carta é para mim ou para ninguém, o que dá no mesmo, visto que ando sem comer, bebendo na hora do pão com manteiga e fumando na hora do suquinho da tarde. Ainda não sei se a coloco numa garrafa, tipo antigamente, ou se a deixo cair na rua, tipo performance ultra moderna, dessa gente süpër descolada da cidade. Gente que mostra o pentelho em festinhas onde ninguém se olha no olho. Escrever cartas é tão 1989. Em oitenta-e-nove tinha eu 13 anos, pentelhos iniciais e nenhuma vontade teatral de mostrá-los em eventos cariocas. Adivinhação é um perigo, trabalha num campo fantasmagórico de chutes. A maioria na trave. Me aproprio. Quedjabéisso que tenho de achar que sei o que outra pessoa acha, sente, deseja. Que diabo é isso. Que diabo é isso. Preciso repetir pra tentar saber responder. Esse demônio que habita minha orelha esquerda é engraçado. Fala cada merda. E tem muita fome, o que me irrita quase sempre. Acho que essa carta vai ser para Tilibra mesmo. Essa grande incentivadora da minha escrita. A música que escrevi, e só escrevi para ver a diferença da música cantada para a música escrita, é bem bonita e ouvi agorinha mesmo e doeu um pedaço do meu pulmão, achei estranho doer ali, mas faz sentido, já que não tenho conseguido respirar direito. Já que não tenho comido bem. Já que não tenho negado cigarrinhos. Já que você não me deu seu número novo.

No mais é isso. Viciei em borrifar alfazema no ar. Lou-cu-ra.
Beijos pra mim, eu que me masturbo pensando em mim mesma.
Lou-cu-ra!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Marília,
Daqui recomeço,
me deu uma coisa só de pensar que você manda cartinhas escritas para o meu primo Cláudio, o amante da minha irmã do meio, lembra?, que se ca(n)sou há uns três anos de papel e tudo mais. olha, Marília, estou abrindo aqui em Miracema uma vendinha de coisas reluzentes e trequinhos vermelhos, um luxo! me custaram a pele da bunda, mas pretendo, com os lucros, abrir negócio para lá de honesto para você:
um sobrado que dá para o rio, os fundos para um jardim de alfaces,
a sala dá gosto de entrar, subir correndo as escadas, quem chega primeiro? eu vou sim te buscar São Paulo, nos prometemos fazer amor no criado mudo, gritar baixinho para que a vizinhança não se ofenda e chame, quem mesmo? e, quando a gente enjoar, e se, reabrimos o negócio com outro nome: LiLi's. já estou até vendo romeiros chegando com os bolsos do lado esquerdo cheios de pedidos. alvará e tudo.
Marília, sou que usted, sou socialista, divido tudo menos o meu Nobel da Pintura.
beijos cavernosos, Eduardo


(enviado por Lucenne)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

resposta 2

Marília,

como você, só a Gabriela, mas ao contrário de tua única xará, ler “ma-rí-lia” faz meu pau subir e você ainda veio com literatura cheia de guéri-guéri. Tá querendo me matar, mulher? Olha que ainda te fertilizo. Só ainda não fui porque existe um papel chamado dinheiro e apenas com esse papel eu consigo comprar cerveja belga, um livro despretensioso, e pagar a conta de água para poder tomar banhos quentes, que é mais ou menos o que costumo fazer para matar a saudades da sua cara de raposa. Todos nós temos cara de animais, você também vê isso? Já entendi que sou do clube com face aviária. Só ainda não sei que tipo de ave eu seria. Você é mais pra felina, mas não gatinha, esses seres blasés que me causam atchins, mas também não chega a ser tigresa. Aí já extrapola uma domesticação que te pertence. E que eu tenho que disfarçar as calças de tanto tesão quando te penso. Teu recado de topar o básico e negociar o resto vai ser rasgado por mim em todas as ruas da cidade. Tenho ouvido moderno, coração não.

O boi do seu sonho era magro ou gordo? Fui num site sobre significados dos sonhos e dependo um pouco do peso para interpretar melhor – te contei que larguei a análise? Mas li outras coisas que bem me interessaram, do tipo: “Quanto a este sonho, você deve estar muito bem em matéria de potência sexual. Também deve ser muito teimoso ou rebelde, muito forte e, às vezes, desejado. O boi vermelho é o primeiro chacra, centro de energia localizado na base da espinha dorsal e que representa o mundo material.”

Assim me despeço, estrela solitária botafoguense, te desejando de 10 em 10 segundos, tipo memória de peixe,

Beijos nos lábios, de todos os tamanhos.

Carta 2

Cláudio, escuta

baixinho aqui na tv tem uma dona do sexo falando de verrugas brancas na genitália femin...Deixa pra lá.
Eu ia te ligar ontem, mas minha voz anda cansada de ouvido, então estou apelando pra caneta (do cara do gás, porque na bagunça da mudança não encontro sequer uma). Não é delírio nenhum; estou querendo ficar com os lábios, os grandes, apertados, e seria O fim alugar filme pornô. né não? Sabe que já pensei em largar o bom senso e mandar anúncio pra jornal:
Gleisiane (pseudônimo), peitinho duro, mamilos bonitos, olhos azuis, um céu na cama. Topo o básico e negocio. Esdrúxulo isso! Pode ficar com vergonha alheia.
Pelo menos eu pulo a azaração, blablabla inicial, risinho desmanchado com resposta pra perguntas indizíveis; economizo na gasolina e na dor de peito partido no triiiiim do relógio escroto que comprei no camelô junto com meu amor próprio. 07:00 AM !
Você sabe que com você também foi assim, e mesmo que eu tenha dito que sou do tipo que passeia passos sem pegadas, que não me amarro nem em mim... meu dentro se amarrou. E foi em você. Eu escrevo pra ver se você larga as ferramentas, a gata cor de leite e o Botafogo pra vir correndo pra São Paulo.
Nem ligo se você tem família. Se você não tem, pouco ligo.
Eu não sou do tipo que sonha com domingo na sogra, chá com as primas e buquê. Só quero peso largo em cima do meu pluma; verdadeiramente me dilacerando, te deixo dizer até palavrões. Mas vêm? Meu lençol tem margaridas e colônia de engano. Diz que vêm? Porque meu grito escrito é urgente.


Ah, ontem sonhei que um boi verde mastigava a carta que fiz pra você. Vou correndo colocar esta no correio.

Um beijão da Marília.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Resposta 1

E como é que se escreve carta? Eu só mando email de formato pronto.
ok, saudações, obrigada com meu nome e contato.


Então. vou tentar: Querido Marcos (como sou criativa, hm? pelo menos honesta),

como aí neva, aqui derreto. Num Rio típico de janeiro, o calor me enlouquece, fico com pizza e nada elegante. Trabalho sem parar, por isso só respondo agora. Responsabilidade empilhada,que me deixa em hora extra que só relaxo quando fico no vazio: aumentei agorinha o rádio, na Jovem Pan, a unica rádio que consegui sintonizar (não das minhas favoritas). Por sorte, resolveram fazer um top 10 80's e me lembrei de nós dois, também, nos escangalhando de risadas alcóolicas dançando Information Society na beira da piscina lá de casa. É, faz tempo que nao me escangalho de rir; acho que nem a do miojo adiantou.
Esse papo de documentário me lembrou uma coleção de fitas da Discovery Channel que meu pai tinha. A minha favorita era Piranhas, não sei se por parecerem mais perigosas. Eu permanecia estática, com olhos arregalados em frente a televisão com videocassete acoplado, por 5 minutos exatos, que era o tempo que as piranhas demoravam para devorar os bois burros que cruzavam o rio. Aposto que agora você deve estar pensando: e você cronometrou?
Escuta Marcos, eu também pertenço ao grupo que confunde leões marinhos e focas. Se isso tudo não foi história de língua solta, pois não me lembro bem se taurinos não espirram só uma vez; Faz tempo que eu.... Sei que mentem um pouquinho. Mentira (eu também sou taurina)Verdade. Está aqui uma dúvida: como é que eles conseguem distinguir quem tem o direito sobre as fêmeas e quem não tem? Pelo tamanho do pau, imagino? Mas que todos os rejeitados encontram uma válvula de escape, ah encontram. Sabe querido, que essas suas palavras até me amolereceram um pouquinho. Me amolecem o corpo, o dia, e até virei os olhos agora pra ter início de orgasmo vendo você por inteiro. Desculpe se não ando muito mulherzinha. Nao vou repetir a frase do faz tempo, corro o risco de você nem terminar esta carta. Esse tom saudosista que aplicamos nas palavras, é, faz bem pra início de conversa. Mas preciso me adiantar pra esses lados quentes, vê se arrumo uma cor, que além de sem açucar, ando desbotada também. Talvez a cor que você sempre quis: detestava mulher com marca de biquini. uma coisinha: descobri que sou alérgica a azeitonas. Picadas ou não.

Um beijo caloroso, pra não soar tão informal.
penso em você, que quer dizer, sinto sua falta. Carina


ps: você continua fumando?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

carta 1

Canadá, dezembro, preguiça de conferir o dia (aqui não preciso disso), 1998.

Querida, adormeci vendo um documentário espetacular. Mas como o sono foi pesado, não saberia dizer se a história é com leões marinhos ou focas. Forço a memória e concluo que é mais provável ser leão marinho. Pois. Só alguns podem cruzar. Sim. Só os mais valentões (não sei como são feitas as definições) têm direitos de irem até às leoas e levar um papo mais quente. Os leões que não podem sofrem tanto com a abstinência (ou virgindade?) e ficam tão revoltados que saem matando filhotes dos vizinhos. Não é impressionante? Pensei em todas as guerras mundiais e na falta de buceta (ou cu também). Tá lá o leão marinho, doido de amor, querendo entrar na leoa, e aquela desconhecida resistência que o espanta. E para NOSSO espanto, ele desconta o amor não concedido nos filhotes, mais fracos, de bobeira no caminho. Esse ensaio de carta é só porque ouvi essa história e lembrei da época em que investi meu tempo em você. Você e as reações mais legítimas universais. O problema é que você era a leoa com poder de escolha e também uma filhota no meio do caminho. Eu te quis e te trucidei. Que guerra particular arriscada em me meti.
Agora neva muito e tive essa turbulência toráxica e achei melhor escrever. Espirro sempre 3 vezes, não era você que dizia que taurinos nunca espirram uma vez?
Não sei pedir desculpas, ainda mais com essa minha caligrafia, mas sei contar piadas. Você lembra disso? Que eu sei contar piadas?
Um cara foi ao médico e já estava bem ruim o seu estado e ele tinha recebido a notícia que tinha mais 5 minutos de vida (imagine só ter mais 5 minutos de vida!), daí ele pergunta :
- Doutor, o que você pode fazer por mim ?Aí o cara manda:
- Analisando as circunstâncias, um miojo!
Me escangalhei de tanto rir agora. Espero que você daí também. Lembrei dessa porque tenho feito bastante uso de tal alimento, se é que pode se chamar de alimento.
A verdade é que (como se tudo que escrevi até agora foi mentira) sinto sua falta todo dia. Ou penso em você todo dia? Dá no mesmo? Queria sua ajuda. Mentira! Vou desvendar sozinho. Mentira!
A real é que hoje neva muito, e ao invés de necrosar dedos, resolvi fazer miojo e querer de volta aquele dia que você inventou de picar azeitona pra jogar nele.
Eu beijei essa carta aqui, ó:
(toque seus lábios, por favor)










Marcos.